Transtornos Alimentares.
Atualizado: 16 de ago.
Anorexia, bulimia, compulsão alimentar e dismorfia muscular não são transtornos que falam apenas sobre a relação do indíviduo com a comida . São condições complexas que podem afetar a saúde física, a autoestima, os relacionamentos e toda a dinâmica familiar, tipicamente são formas de regulação emocional que estão associadas a identidade de imagem de uma pessoa.
Aviso de conteúdo: esta matéria aborda transtornos alimentares, imagem corporal, compulsão alimentar e comportamentos de compensação. Algumas referências culturais podem ser sensíveis para pessoas que estejam vivenciando ou se recuperando de um transtorno alimentar.

Comer não é apenas uma necessidade fisiológica, mas um comportamento social, que está associado a vida emocional e cultural de um sujeito. Comida em muitas vezes pode assumir o papel de prazer, memória, conforto, pertencimento e até mesmo prestígio social, da mesma forma o corpo não ocupa apenas uma realidade física, mas define as percepcoes que a sociedade tem uns sobre os outros e o seu valor.
Nessa relação que os transtornos alimentares podem surgir. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos alimentares envolvem alterações importantes no comportamento alimentar e preocupações relacionadas à comida, ao peso ou à forma corporal. Em 2021, estimasse que aproximadamente 16 milhões de pessoas no mundo viviam com algum transtorno alimentar, incluindo cerca de 3,4 milhões de crianças e adolescentes. A OMS também destaca que essas condições podem produzir sofrimento significativo, prejuízos no funcionamento cotidiano e consequências graves para a saúde.
O National Institute of Mental Health (NIMH) afirma que tais transtornos são doenças sérias e não meras escolhas como muitas pessoas podem pensar, e pode vir a acometer pessoas de diferentes grupos, gênero, idade, etnia e posição social e que nem sempre os sintomas são visiveis, uma vez que individuos podem estar dentro, acima do peso considerado "normal" e ainda apresentarem um transtorno alimentar.
No DSM-5-TR, os transtornos alimentares fazem parte de uma categoria própria chamada Transtornos Alimentares e da Ingestão de Alimentos.
Entre os diagnósticos mais conhecidos estão a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno de compulsão alimentar. Existem ainda outras condições, como o transtorno alimentar restritivo/evitativo (ARFID), pica, transtorno de ruminação e categorias como outros transtornos alimentares especificados.
No que se diz respeito ao diagnóstico, não podemos reduzi-los a uma lista de comportamentos isolados, mas temos que levar em consideração a frequência, intensidade e impactos nas relações interpessoais do individuo e por fim o sofrimento oriundo do comportamento. As pessoas podem fazer dietas, comer em grande quantidade sem configurar em um transtorno alimentar, e tais comportamentos podem ocorrer de forma pontual, isto é, sua frequência, curta e especifica a um periodo de sua vida.
Essa diferenciação é importante porque na cultura contemporânea muitos comportamentos potencialmente perigosos são hoje considerados algo aparentemente normal. “Dieta”, “detox”, “jejum”, “corpo perfeito”, “projeto verão”, “clean eating”, “bulking”, “cutting” e exercícios excessivos podem aparecer nas redes sociais como hábitos de saúde. Em determinadas pessoas, porém, essas práticas podem fazer parte de um quadro muito mais complexo.
Anorexia Nervosa
A anorexia nervosa, é um transtorno conhecido pela restrição persistente da ingestão de alimentos, acompanhados do medo intenso de ganhar peso, além de compartos que interfiram no seu ganho. De acordo com DSM-5-TR são reconhecidas diferentes apresentações de da anorexia nervosa, incluindo o tipo restritivo e o tipo compulsão alimentar/purgação.
A comum associação ao se referir a anorexia, é de um corpo extremamente magro no entanto tal representação é insuficiente, uma vez que individuos com anorexia podem assumir corpos dentro do padrao ou ainda relativamente acima do peso.
De acordo com National Institute of Mental health (2026) pessoas podem apresentar diferentes tipos/pesos corporais e ainda estar gravemente acometidos por um transtorno alimentar, dessa forma a aparencia fisica nao pode ser utilizada como unico instrumento de diagnóstico.
A anorexia nervosa vai além do desejo de ser magro, se refere à regulação emocional, muitas vezes indivíduos podem se sentir sem controle na vida, e acham a restrição alimentar uma forma de retomar o controle de sua vida, mesmo que seja lesando o próprio corpo, especialmente ao lidar com questões de ansiedade, insegurança.
Com o tempo, entretanto, aquilo que inicialmente parecia uma forma de controlar o corpo pode começar a controlar praticamente todos os aspectos da existência: o que comer, quando comer, onde comer, com quem comer, quanto comer, quanto exercício fazer e como o corpo será percebido.
A doença pode produzir consequências cardiovasculares, metabólicas, hormonais, ósseas e neurológicas, além de consequências psicológicas importantes. A OMS destaca que a anorexia nervosa pode estar associada a morte prematura decorrente de complicações médicas ou suicídio.
Bulimia Nervosa.
A Bulimia Nervosa segue uma lógica diferente da Anorexia Nervosa, o sujeito com esse transtorno apresenta comportamentos de compulsão alimentar, isto é, ingestão excessiva de alimentos, seguidos do sentimento de culpa e comportamentos de compensação, normalmente ocorrem por ansiedade e também são uma forma de regulação emocional.
A esses episódios de compulsão seguem se de comportamentos compensatórios inadequados, como vômitos autoinduzidos, uso de laxantes ou diuréticos, jejuns prolongados ou exercício físico excessivo. Para que o diagnóstico seja fechado, esse padrão precisa se repetir em média uma vez por semana durante pelo menos três meses, o que ajuda a diferenciar um episódio isolado de um transtorno instalado.
Pesquisadores do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares da UFRJ destacam algo importante nesse ponto. Segundo o DSM 5, a característica que define o episódio de compulsão é a perda de controle percebida pela pessoa, não necessariamente a quantidade de comida ingerida. Essa distinção clínica ajuda a diferenciar a bulimia de outros quadros semelhantes, como a anorexia do tipo purgativo ou o transtorno de compulsão alimentar.
Vigorexia
A vigorexia, é conhecida como um subtipo de transtorno dismórfico corporal, é chamada na literatura científica de dismorfia muscular. Funciona quase como um espelho invertido da anorexia. A pessoa é objetivamente forte e musculosa, mas se enxerga pequena e fraca, o que a leva a treinos excessivos, uso de suplementos e, em muitos casos, esteroides anabolizantes.
Revisões brasileiras publicadas em periódicos de educação física e saúde, como a Revista Brasileira de Nutrição Esportiva e a Revista Brasileira de Medicina do Esporte, estimam prevalência entre 6% e 10% entre frequentadores de academia. Instrumentos como o Inventário de Dismorfia Muscular medem três eixos do quadro, a preocupação com o tamanho do próprio corpo, a intolerância à própria aparência e a percepção de defeitos funcionais no corpo.
O transtorno tem prevalência marcadamente maior entre homens jovens, embora também possa afetar mulheres. Pesquisas apontam insatisfação corporal significativa mesmo entre praticantes já muito musculosos, o que reforça um ponto central do quadro. O corpo nunca é suficiente aos olhos de quem sofre com a vigorexia, independentemente do ganho de massa muscular real conquistado ao longo do tempo.
Transtornos alimentares na mídia e o senso de controle.
Existe uma ideia recorrente na literatura científica sobre transtornos alimentares: eles funcionam, muitas vezes, como uma estratégia (disfuncional) de regulação emocional. Quando a vida parece incontrolável, o corpo se torna o único território onde ainda parece possível decidir algo. Ao controlar o corpo, o sujeito tem a sensação de controlar a alma, além de um reconhecimento social por ser capaz de se autodominar (UFS, Clínica e Cultura). Pesquisadores também descrevem que pessoas com transtornos alimentares tendem a carecer de estratégias adaptativas para lidar com emoções intensas, sendo mais vulneráveis a se envolverem em excessos emocionais justamente por não conseguirem identificar e lidar de forma saudável com esses estados (UNA Catalão, 2024).
Duas produções recentes ilustram isso de um jeito muito humano.
Em Heartstopper, o adolescente Charlie Spring desenvolve anorexia enquanto lida com ansiedade, após alguém de sua escola revelar para todo mundo sobre sua sexualidade, com os comentários e sensação de não ter controle sobre sua própria identidade, ele restringe a ingestão de alimentos por buscar controle e regulação emocional, A série não foca muito no transtorno mas como a família e amigos se preocupam e buscam ajudar-lo (Kelly, 2024).
Segundo o Trevor Project (2022) crianças e jovens adultos da comunidade LGBTQIA+ são grupo de risco para diagnóstico de transtorno alimentares, visto que lidam com muita ansiedade e em muita das vezes com bullying no contexto, escolar, académico e social, em pesquisas foi mostrado que em um subgrupo da comunidade LGBT, os transexuais são aqueles que mais sofrem ou com mais risco de desolver um transtorno alimentar.
Já em Skins, a personagem Cassie Ainsworth representa o outro lado dessa mesma moeda, e um alerta sobre como a mídia pode errar a mão. A série mostra o corpo de Cassie como um território de vigilância constante, mas a construiu como uma figura etérea e desejável, o que gerou um efeito colateral sério: adolescentes passaram a admirar a estética da personagem em vez de reconhecer o sofrimento por trás dela, a ponto de a personagem ser descrita como a primeira anoréxica descolada visível na televisão, o que ajudou a criar toda uma geração de fãs que a idolatravam como uma espécie de ícone pró anorexia (Media Portrayals of Mental Illness, 2018). É um exemplo claro de como retratar sofrimento psíquico sem cuidado pode, sem querer, ensinar comportamentos de risco em vez de gerar empatia.
A diferença entre essas duas séries é justamente a diferença entre falar sobre o problema de forma responsável e explorar o sofrimento como estética. E isso nos leva a um ponto central deste texto.
Na série, Cassie se encontrar achando bilhetes, recebendo mensagens "eat" em português, coma, ela se sente confusa e incomodada e acha que Sid, está mandando essas mensagens para ela, no entanto as mensagens são uma projeção da própria mente da Cassie, não alguém realmente enviando as mensagens. A série é filmada de forma deliberadamente subjetiva, então a audiência vê e vive as mensagens junto com ela, o que é parte do que torna a cena tão eficaz e desorientadora. Não existe uma explicação fechada na tela, mas a leitura mais aceita, e que combina com a forma como Skins usa perspectiva subjetiva em outros momentos também, como com o JJ ou a Effy, é que as mensagens são a própria mente da Cassie externalizando a pressão e a preocupação que ela deseja que alguém sentisse por ela. Ela está desesperada por alguém que a note e se importe o suficiente pra intervir, e essa necessidade toma a forma dessas mensagens anônimas de "eat" que ela então projeta no Sid.
É um recurso de roteiro interessante porque espelha a doença dela na forma, não só no conteúdo. O transtorno alimentar isola ela tão completamente que até o pedido de ajuda dela precisa vir de dentro da própria cabeça. Esse é um tema sensível, então se alguma parte disso tocar em algo pessoal pra você, tô à disposição pra conversar sobre isso também, ou indicar recursos de apoio.
A série Insatiable foi ainda mais controversa. Sua premissa, uma adolescente que emagrece após um verão de boca fechada por fio cirúrgico e passa a usar o novo corpo como arma de vingança, foi acusada de reforçar a ideia perigosa de que perder peso resolve problemas emocionais e sociais, alimentando o estereótipo de que pessoas em corpos maiores são sempre infelizes e vivem em compulsão alimentar descontrolada, o que reforça uma vergonha que muitos adolescentes já sentem em relação ao próprio corpo (Psychotherapy Networker, 2018).
Mais de 200 mil pessoas assinaram uma petição pedindo o cancelamento da produção antes mesmo da estreia, e a série acabou recebendo uma das piores avaliações da história do streaming no Metacritic. A criadora, Lauren Gussis, defendeu o projeto afirmando que a história era baseada na própria experiência dela com bullying e transtornos alimentares, e que a abordagem satírica tinha como objetivo expor esses estereótipos, não reforçá los. A Netflix chegou a se manifestar publicamente sobre a polêmica, afirmando que as críticas seriam endereçadas ao longo da própria trama.
Boa parte da recepção negativa, no entanto, apontava que a sátira não se sustentava, porque a série reproduzia visualmente os mesmos clichês que dizia estar criticando, como o uso de uma atriz magra caracterizada com prótese de gordura para representar a protagonista antes da transformação. Esse tipo de escolha estética é um lembrete importante para qualquer discussão sobre representação de transtornos alimentares na ficção. A intenção crítica de uma obra não garante que o efeito produzido na audiência seja o mesmo pretendido pelos autores, especialmente quando o público em questão inclui adolescentes em formação de identidade corporal.
Orange Juice, de Melanie Martinez: quando uma música pop fala sobre bulimia.
A música Orange Juice do álbum K 12, da Melanie Martinez, conta a história de Fleur, amiga da personagem principal Cry Baby, e da luta dela com a bulimia. O que essa música faz de interessante é onde ela coloca a origem do sofrimento. Fleur não desenvolve o transtorno alimentar sozinha, do nada. Ela faz parte de um grupo de amigas que espera dela um corpo dentro de um padrão específico como condição pra continuar pertencendo ao grupo. E isso bate com algo que quem trabalha com transtornos alimentares vê o tempo todo na prática clínica, o problema quase nunca começa com uma escolha isolada sobre comida. Ele começa num contexto de relações, de comparação, de pertencimento, onde o corpo vira uma espécie de moeda de aceitação.
A letra usa a imagem de transformar laranjas em suco como metáfora pro ciclo de comer e depois induzir o vômito. É uma escolha inteligente de linguagem, não é literal a ponto de ser gráfica demais, mas também não é vaga a ponto de ninguém entender do que se trata. Quem já passou por isso, ou já acompanhou de perto alguém passando, reconhece na hora.
A música não trata o comportamento como algo estético, dramático ou motivo de virada na vida da personagem. Ela trata como um ciclo doloroso que se repete sem alívio, reforçado pelo refrão que fala do choro que acompanha esse processo inteiro. A letra também mira a pressão estética mais ampla ao redor da personagem, com versos que descrevem como todo mundo parece querer o que o outro tá tentando alcançar, numa comparação que nunca chega a lugar nenhum. Isso conecta direto com um assunto que a gente já tocou aqui, a vigorexia, porque mesmo sendo uma música sobre bulimia, o motor psicológico é o mesmo, a comparação social funcionando como combustível do sofrimento, não importa qual comportamento específico ela acaba desencadeando em cada pessoa.
Talvez o momento mais bonito da música seja quando a narradora deseja poder emprestar os próprios olhos pra pessoa que sofre, como se isso fizesse ela enxergar no espelho algo diferente do que enxerga sozinha. É pop, mas nomeia bem algo que terapeutas sabem na prática, a percepção distorcida da própria imagem não se corrige com argumento nem com lógica. Ela precisa de outro olhar, sustentado com paciência ao longo do tempo, pra começar a se deslocar de verdade.
No clipe, dirigido pela própria Melanie Martinez, essa história ganha uma representação bem explícita, o que trouxe tanto elogios por dar visibilidade ao tema quanto críticas de quem achou pesado demais pra um público majoritariamente jovem. É a mesma tensão que a gente discutiu falando de Insatiable, a linha fina entre retratar um sofrimento com honestidade e correr o risco de, sem querer, ensinar o comportamento que a obra quer denunciar.
Anorexia, bulimia e vigorexia não são estilos de vida, dietas radicais ou fase da adolescência. São formas de sofrimento psíquico que merecem ser tratadas com a mesma seriedade clínica de qualquer outra condição de saúde mental. A ficção pode ajudar a humanizar essa dor, como fez Heartstopper, ou pode reforçar padrões perigosos, como aconteceu com Cassie em Skins. A diferença está sempre no cuidado com quem assiste do outro lado, alguém que talvez esteja vivendo exatamente aquilo na vida real
Referências:
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
Martinez, M. (2019). K-12 [Album]. Atlantic Records.
Martinez, M. (2019). Orange juice [Song]. On K-12. Atlantic Records.
Media Portrayals of Mental Illness. (2018, May 4). Skins. https://mediaportrayalsofmentalillness.wordpress.com/2018/05/04/skins/
National Institute of Mental Health. (n.d.). Eating disorders: What you need to know. U.S. Department of Health and Human Services, National Institutes of Health. https://www.nimh.nih.gov/health/publications/eating-disorders
The Trevor Project. (2022). Eating disorders among LGBTQ youth. https://doi.org/10.70226/YAMY7874 (The Trevor Project)
World Health Organization. (2025). Mental disorders. https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/mental-disorders
World Health Organization. (2025). Mental disorders. https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/mental-disorders








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